Fortes chuvas e os sinistros

Enquanto o seguro compreensivo de automóvel costuma cobrir danos causados aos veículos, de maneira geral, os seguros residencial e empresarial não contemplam inundação, alagamento ou desmoronamento nas apólices básicas

Por Elaine Lisbôa

Quem não ficou impressionado com a cena de um homem sendo arrastado pela correnteza no Rio de Janeiro? O vídeo, registrado na Estrada da Gávea, na Rocinha, viralizou nas redes sociais e marcou a situação de calamidade do município. No dia 8 de abril, segundo a prefeitura, aconteceu a maior chuva dos últimos 22 anos, causando a morte de 10 pessoas e deixando bairros submersos na destruição.

Os estabelecimentos comerciais tiveram prejuízos calculados em R$ 182,8 milhões, com 76% dos negócios afetados, destes 28,9% registraram danos por conta de alagamento e 16,9% apresentaram avarias na estrutura física. Os dados são do Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises do Rio de Janeiro (IFec/RJ).

Na Grande São Paulo e região do ABC, o ápice aconteceu um mês antes, no dia 8 de março, com um temporal que causou a morte de, pelo menos, 12 pessoas e prejuízos da ordem de R$ 45 milhões ao comércio. O Centro de Gerenciamento de Emergências da Prefeitura pontuou que o índice médio de chuva na cidade, durante 12 horas, foi de quase 1/3 do esperado para todo o mês de março, sendo o maior volume registrado em São Paulo desde 2006.

No comércio, a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) explica que o cálculo de prejuízos considerou apenas o impacto sofrido durante o dia e que os setores mais afetados foram os suscetíveis a compras não programadas, como supermercados, farmácias e lojas de roupas, além do grupo denominado “outras atividades”, que agrega livros e artigos esportivos, por exemplo.

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As chuvas de verão já eram aguardadas com preocupação pelos brasileiros, o que impressiona é a duração dos períodos de estado de emergência estar ultrapassando a estação chuvosa, percorrendo o mês de abril. O presidente da Comissão de Riscos Patrimoniais Massificados da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), Jarbas Medeiros, acredita que o aquecimento global e fenômenos como El Niño têm influenciado no aumento da sinistralidade.

Um levantamento da Federação diz que o número de indenizações de seguros por sinistros causados por eventos climáticos aumentou 60%, entre janeiro e fevereiro deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado. A cada R$ 100 arrecadados com coberturas por alagamento, inundação e raio, R$ 74 foram pagos para reparos de danos, valor que, no ano passado, era de R$ 46.

Exclusões nos seguros patrimoniais

Apesar de existirem diversos tipos de seguros que possam amparar a sociedade na mitigação de perdas econômicas em decorrência de eventos da natureza, de maneira geral, as coberturas básicas dos seguros residencial e empresarial não contemplam inundação, alagamento ou desmoronamento. Para contar com essas coberturas, deve-se contratá-las de maneira acessória. Mesmo assim, a cobertura para sinistros decorrentes das chuvas depende do aceite da seguradora, mediante vistoria prévia no local.

Se for constatada alta probabilidade de enchentes e inundações, normalmente as companhias recusam a contratação do seguro” – Ezaqueu Antonio Bueno, coordenador da Comissão de Riscos Empresariais do Sincor-SP

 

As seguradoras acompanham constantemente as ocorrências climáticas em todas as regiões do País, especialmente as que resultam em pagamentos de indenizações decorrentes de sinistros. As estatísticas apresentadas pelos órgãos de pesquisa do tempo norteiam os estudos atuariais, que precificam cada uma das coberturas oferecidas.

Esses valores podem variar conforme a região esteja mais ou menos sujeita a determinados eventos climáticos, como pela proximidade a rios, lagos, morros, baixadas etc. No Brasil, segundo dados do IBGE, divulgados em junho do ano passado, existem mais de 8 milhões de pessoas vivendo em áreas com risco potencial de enchentes e deslizamentos de terra, espalhadas em 872 municípios.

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São Paulo ocupou a 2ª colocação no ranking, com 674,3 mil moradores, perdendo apenas para Salvador, que registrou 1,2 milhão. O superintendente de Seguro Habitacional e Massificado da Brasilseg (uma empresa BB Seguros), Wady Cury, aponta que, antes de aceitar o risco, as seguradoras fazem inspeções para precificar e fixar limites de aceitação.

O seguro deve ser visto como um meio e não uma finalidade. Cada seguradora tem a sua política de análise e aceitação de determinados riscos em função da sua potencialidade de ocorrência e consequência” – Wady Cury, superintendente de Seguro Habitacional e Massificado da Brasilseg

 

Segundo Cury, “há produtos residenciais e empresarias, os chamados multirriscos, com coberturas, limites e custos pré-elaborados, que podem ou não atender as especificidades de determinados segurados, em função das características e particularidades dos riscos que estão sujeitos”.

Referindo-se aos efeitos danosos das chuvas, as coberturas básicas desses seguros incluem, de maneira automática, a proteção contra queda de raios, mas outras proteções contra riscos comuns durante temporais devem ser oferecidas pelo corretor de seguros ao cliente para garantir a preservação dos bens adequadamente. Entre as coberturas adicionais podem ser listadas: alagamento e inundação, desmoronamento, vendaval, furacão, ciclone, tornado, granizo e ventos fortes.

É importante destacar que, em caso de negligência por parte do segurado, quando há agravamento do risco (janelas e portas abertas durante a chuva, por exemplo), não há cobertura, mesmo se estiver contratada a cobertura de alagamento” – Saint´Clair Pereira Lima, diretor Técnico da Bradesco Auto/RE

 

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Garantias do automóvel

Já no seguro automóvel, a cobertura compreensiva costuma incluir o pagamento de prejuízos decorrentes de danos causados ao veículo segurado em casos de submersão total ou parcial, exceto se o condutor agravar o risco, atravessando a água. “A cobertura compreensiva, com valor adequado para terceiros, é suficiente para proteger o veículo de maneira adequada”, enfatiza o coordenador da Comissão de Automóvel do Sincor-SP, Salvador Edison Jacintho.

Segundo o diretor do Porto Seguro Auto, Jaime Soares, o seguro sempre é personalizado de acordo com o perfil, por isso, existem opções adicionais bastante atrativas. “Ao optar pelas coberturas adicionais, o segurado conta, por exemplo, com a higienização do carro, que garante a limpeza do estofamento, desde que o sinistro não atinja o valor da franquia.

No caso de perda total, a indenização, por lei, deve ser feita após a comunicação do sinistro, em até 30 dias, a partir do cumprimento de todas as exigências por parte do segurado. Entretanto, buscamos indenizá-lo o quanto antes”, destaca Soares.

No entanto, se a cobertura do veículo não for compreensiva, não haverá indenização. “Se a apólice for somente para incêndio e roubo, responsabilidade civil, ou apenas roubo e furto total, o veículo não estará coberto por danos decorrentes de desastres naturais. Então, é fundamental checar a apólice”, orienta o diretor de Sinistros da Allianz Seguros, Laur Diuri.

Gerenciamento de riscos

Qualquer pessoa está sujeita a enfrentar sinistros ocasionados pelas chuvas, seja com o veículo, a casa ou a empresa, por isso, os especialistas reforçam a importância de estar prevenido. Saint´Clair Lima, da Bradesco, indica “manter a limpeza de calhas e caixas de passagem de água pluvial, construir um bom sistema de drenagem do terreno, além de fechar janelas e portas de varanda ao sair de casa, principalmente em apartamento”.

Wady Cury, da Brasilseg, lembra que os riscos, são intrínsecos à vida de todos, por isso, a melhor maneira de estar protegido é buscar informações técnicas e tomar todas as providências necessárias para mitigá-los o máximo possível. “As próprias seguradoras podem ser indutoras dessas práticas, pois como especialistas em gestão de riscos podem ajudar – e muito – a sociedade a se proteger”.

Já o diretor do Porto Seguro, Jaime Soares, indica ao segurado recorrer ao seu corretor: “o corretor é o principal parceiro do cliente e está sempre à disposição para auxiliá-lo em caso de dúvidas sobre o seu seguro”, conclui.

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Fonte: Sincor SP/ JCS

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